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Ilustração de Júlio Pomar

Debalde um véu cioso, ó Nize, encobre
Intactas perfeições ao meu desejo:
Tudo o que escondes, tudo o que não vejo
A mente audaz e alígera descobre.

Por mais e mais que as sentinelas dobre
A sizuda Modéstia, o cauto Pejo,
Teus braços logro, teus encantos beijo,
Por milagre da ideia afouta e nobre.

Inda que prémio teu rigor me negue,
Do pensamento a indómita porfia
Ao mais doce prazer me deixa entregue.

Que pode contra Amor a tirania,
Se as delícias que a vista não consegue
Consegue a temerária fantasia?

in “Os mais belos sonetos de BOCAGE”
escolhidos por José Régio

 


Bocage e as Ninfas
Óleo de Fernando Santos. Museu de Setúbal
Manuel Maria Barbosa du Bocage

Poeta (Setúbal 15.9.1765-Lisboa 21.12.1805).
Neto materno de um marinheiro francês, assentou praça em 1781 e dois anos depois passou a servir na Marinha, tendo embarcado para Goa em 1786. Irrequieto e aventureiro, foge para Macau, donde regressou a Lisboa em 1790. Aqui entregou-se à vida boémia. Tendo entrado na Nova Arcádia, adoptou o nome Elmano Sadino. Desordenado nos costumes, é preso em 1797, por desrespeito ao rei e à Igreja, cumprindo a pena no Hospício das Necessidades, a cargo dos Oratorianos. Em 1799 recupera a liberdade, passando a viver de expedientes honestos. Teve uma dolorosa mas consciente e regeneradora despedida da vida. Morreu de um aneurisma. Irmão de Camões na «má fortuna», nas andanças pelo Oriente e nos amores infelizes, foi o maior poeta português do séc. XVIII. De 1791 a 1804 publicou os três volumes das Rimas (as suas obras completas formaram sete volumes na edição de 1849-1850). Se a moldura formal é árcade, a temática é já pré-romântica e mostra o homem ora marcado pelo destino para a desventura, ora esforçando-se por vencer a fatalidade, conciliando amor e ódio, céu e inferno, morte e libertação. O aspecto satírico da sua personalidade e a vida boémia que o estigmatizou ocultam o ser que nele sofria atormentado pelo desejo de aperfeiçoamento interior.

in “O Grande Livro dos Portugueses”. Ed. Círculo dos Leitores. Lisboa: 1991
 
     

 

 

 

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