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Guilherme de Azevedo
Desenho de Rafael Bordalo Pinheiro

 

Ó máquinas febris! eu sinto a cada passo,
nos silvos que soltais, aquele canto imenso,
que a nova geração nos lábios traz suspenso
como a estância viril duma epopeia d' aço!

Enquanto o velho mundo arfando de cansaço
prostrado cai na luta; em fumo negro e denso
levanta-se a espiral desse moderno incenso
que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

Vós sois as criações fulgentes, fabulosas,
que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas,
mordeis o pedestal da velha Majestade!

E as grandes combustões que sempre vos consomem
começam, num cadinho, a refundir o homem
fazendo ressurgir mais larga a Humanidade!

in A Alma Nova, 1874

Guilherme Avelino de Azevedo Chaves

Guilherme Avelino de Azevedo Chaves nasceu em Santarém a 30 de Novembro de 1839. Fez o curso de Humanidades no Liceu daquela cidade, depois do que fundou e dirigiu ali o jornal O Alfageme, « folha política, literária e noticiosa » (n.º 1, 15-6-1871), iniciando a actividade de jornalista num meio hostil que não suporta a sua intervenção polémica a propósito da Comuna de Paris. Que não se tratava de um animador cultural desconhecido no seu tempo, revela-o a sua ligação ao grupo da «geração de 70», com o qual aparece na cena portuguesa a subscrever o programa das «Conferências do Casino» e não é dos menos activos contra a prepotência e a venalidade de quem ordenara o encerramento das «conferências democráticas ».
Transferindo-se para Lisboa, o seu talento de jornalista pode observar-se através de numerosas publicações, desde a Lanterna Mágica ao famoso Álbum das Glórias onde, sob o pseudónimo de João Rialto, anima as caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro com crónicas (a última é de Janeiro de 1882) de grande originalidade estilística e que provocam o desespero da Ordem e da Carta, das classes e das instituições conservadoras. Como correspondente da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, segue para Paris em 1880, cidade onde acaba por morrer prematuramente dois anos depois. O seu exórdio poético tem lugar com Aparições (1867), seguindo o modelo lírico lamartiniano, embora com Radiações da Noite (1871) se produza uma ruptura no sentido do novo lluminismo cultural, não sem contaminações retóricas de Victor Hugo que atingirão igualmente o canto de Guerra Junqueiro ou de Gomes Leal. É, porém, com A Alma Nova (1874) que o tecido poético apresenta marcas de modernidade e um discurso com não poucas homologias com o de Cesário Verde, razão por que não será ousadia falar de Guilherme d' Azevedo como precursor de Cesário. De resto, na época, a renovação da forma poética era atribuída muito mais ao primeiro do que ao segundo. Antero e Camilo não esconderam o seu entusiasmo pelo verbo novo azevediano. E é conhecida a mágoa de Cesário (carta a Silva Pinto) quando Teófilo Braga, depois de ler os seus poemas, se manifesta abertamente por Guilherme d' Azevedo: «talvez o único que no futuro poderá representar a poesia moderna»


in Guilherme D' Azevedo, A Alma Nova, introd. Manuel Simões, 1981

 

     

 

 

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